Arquivo Marker: Fabiano Rodrigues

postada em: 25 out 2012

Nessa última semana da coletiva Marker, que encerra sábado, dia 27 de outubro de 2012, vamos publicar algumas entrevistas e textos sobre as obras e instalações da exposição, abordando também as relações particulares de cada artista com branding. Para começar, uma conversa com o artista/skatista Fabiano Rodrigues que, inclusive, vai projetar um trabalho inédito em vídeo no último dia da exposição. – Pex
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Conte sobre a sua relação com marcas.
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Nos anos 80 eu já andava de skate e gostava muito dos adesivos, dos anúncios, dos logos e slogans. Prestava atenção nisso tanto quanto nas manobras de skate das revistas e vídeos. Gostava de desenhar logos e escrever slogans, mesmo não relacionadas ao skate. Isso me marcou muito. Quando comecei a fazer parte do mercado de skate como skatista amador e depois profissional, a ter patrocinadores, você começa a virar uma marca ambulante, carrega no peito todo esse Karma de logotipia e slogans. Depois de passar por todas essas marcas como patrocinado/estuprado, você começa a ter uma certa noção de mercado. Então veio a vontade de fazer a coisa certa, criar uma marca com conceito, que traga a sua personalidade. E é óbvio que você quer fazer tudo ao contrário do que estava vendo. Quer patrocinar os amigos ou os que se identificam com o seu projeto. Quer fazer o ideal. E é geralmente aí que você se fode. Muito amor e nenhuma experiência real de mercado. Mas ficou todo o lado criativo, a vontade verdadeira de construir algo.
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Você também teve as suas próprias marcas e hoje trabalha com a Volcom, em paralelo a sua carreira como artista.
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Eu fiz duas marcas de skate, uma eu não quero nem mencionar e a outra se chama SUPERIA, todas elas voltadas para o skate agressivo e com identidades ligadas a música e arte. Com elas aprendi a mexer em programas de vetor, de bitmap e a ter interesse em fotografia e vídeo. Passei a entender realmente o quanto o skatista é importante para uma marca de skate. Como marca, a Volcom me inspirou muito, sempre gostei da desordem, da influência dadaísta e do experimentalismo dela. Foi uma surpresa receber um convite para trabalhar na Volcom, sem experiência em empresa e sem nem saber ligar um Mac, mas sim pela minha criatividade.
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Em que momento o trabalho para marcas passa a mostrar um pouco da sua visão autoral?
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A Crail foi a primeira marca que me fez um convite pra produzir com liberdade, desenvolvendo a arte para caixa do eixo de skate de um skatista profissional. Fiz tudo em colagem manual. Na hora de aplicar no gabarito digital, só Deus sabe como deu certo.
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Participando de uma equipe de marca como skatista, você sentia que fazia parte da estratégia de branding? Como era essa relação?
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Você vira uma vitrine, ou um boneco. Em algumas marcas você faz parte de estratégias sim, mas em outras tanto faz, você está lá porque a cartilha diz que uma marca “tem que ter” um skatista. A relação depende muito da marca. Em algumas você entra por amor, em outras por dinheiro e em outras por amizade. Tudo isso junto é o que todos skatistas patrocinados querem de uma marca.
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Conte sobre a colaboração com a marca Agacê no seu shape assinado lançado na exposição Marker.
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Foi realmente surpreendente, pelo fato de sermos muito bem recebidos (LOGO e Fabiano). Eu deixei de ser skatista profissional e não imaginava ter um modelo de shape nunca mais. O projeto foi muito bem aceito de forma unânime e é muito bom saber que Agacê é uma marca adulta e a Supa (dsitribuidora Agacê, Crail, etc.) vem fazendo um trabalho de sonho no mercado brasileiro. Eu quis fazer uma colagem mais gráfica, mais voltada para o design gráfico de skate. Mas estava em uma fase pessoal desestabilizada e, durante uma briga de família, coloquei tudo pra fora nesse trabalho. Acabei fazendo algo pessoal, e não que agradasse por ser bonito. Quero que o skatista pegue esta arte através do shape e a destrua com toda sua raiva, pra que essa zica suma da minha vida. Como se o corrimão ou uma borda virasse uma borracha e pudesse apagar tudo isso. A forma que o shape foi apresentado na exposição Marker mostra essa continuação do processo criativo. A colagem original, o shape novo produzido industrialmente e, finalmente, o que vai acontece com ele quando é usado por um skatista, que no caso fui eu, como aparece ao lado da instalação, em um dos meus auto-retratos andando de skate.
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